"Para mim as festas do povo estão no meu coração"

"Para mim as festas do povo estão no meu coração"

É com os olhos humedecidos que Conceição Quintas fala das Festas do Povo de Campo Maior. A emoção toma conta do discurso quando explica que durante quase um ano, a população de Campo Maior mobiliza-se para preparar esta tradição centenária.

No Centro Interpretativo Festas do Povo – Casa das Flores, inaugurado em agosto de 2022, também se sente a emoção da construção das flores.

Ali preserva-se uma tradição que, a 15 de dezembro de 2021, foi classificada pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Conceição Quintas acompanha diariamente quem entra para conhecer esta história. E basta falar das festas para que a emoção lhe transforme a voz. "Se todos os anos elas são belas, este ano vão ser magníficas", garante.

Pouco depois, os olhos começam a humedecer. "Esse selo de qualidade representa muito para os campomaiorenses". A emoção torna impossível separar as palavras do sentimento.


"Falar nas festas a mim emociona-me, porque é uma felicidade enorme partilhar para o mundo o que Campo Maior consegue fazer de belo. Para mim as festas do povo estão no meu coração. Sempre e todos os dias", diz, já com as lágrimas nos olhos.

A preparação da maior manifestação popular da vila começa cerca de um ano antes. Em cada rua, os vizinhos reúnem-se, discutem, fazem contas ao tempo, ao esforço e às disponibilidades.

No fim, cabe à cabeça de rua recolher a vontade coletiva. Só depois de todos concordarem é que a rua é oficialmente inscrita.

"É uma festa que só acontece quando o povo quer, porque é uma festa de muito trabalho. As pessoas têm de unir-se e sensibilizar-se porque, se calhar, nesse ano, algumas férias vão ser mais curtas as pessoas vão estar a trabalhar", faz questão de sublinhar Conceição Quintas.

No dia 19 de outubro do ano passado, ficou claro que a resposta seria afirmativa. As ruas voltaram a ouvir um som que anuncia muito mais do que uma festa. A tradicional arruada percorreu Campo Maior para dar a notícia que todos esperavam: as Festas do Povo estavam de regresso.

Homens e mulheres caminharam pelas ruas ao som das pandeiretas e das castanholas, anunciando à vila o início simbólico de uma caminhada que só terminaria meses depois, quando as flores subissem aos céus das ruas.

"O povo tem de se sentir unido e confiante", afirma Diogo Guerrinha, da Associação das Festas do Povo de Campo Maior. E essa união mede-se também em números.

A organização espera que a edição deste ano bata todos os recordes de presença e possa mesmo ultrapassar o meio milhão de pessoas.

Para tornar possível a edição deste ano, a associação conta com vários apoios. "São mais de seis mil voluntários campomaiorenses" envolvidos na organização de um evento que tem orçamento de 600 mil euros.

Mas flores que vão cobrir Campo Maior não nasceram apenas da criatividade do seu povo. Trazem consigo uma história que atravessa séculos. Estão enraizadas no culto a São João Baptista, padroeiro de Campo Maior, desde o século XVI. 
No livro Campo Maior. As Festas do Povo das origens à actualidade, editado em 2004 pela Livros Horizonte, Francisco Pereira Galego explica que a devoção do povo às festas teve início em 1893, como forma de agradecimento a São João Baptista por ter salvo Campo Maior das aflições provocadas pelo cerco de tropas invasoras que estavam na iminência de tomar de assalto a povoação.

Desde então, a tradição foi passando de geração em geração, sobrevivendo ao tempo, às mudanças e às interrupções.
Feitas as contas, esta celebração realizou-se já por 34 vezes. A última edição aconteceu em 2015. Este ano, Campo Maior prepara-se para viver a 35.ª edição.

Quem quiser compreender esta história antes de percorrer as ruas da vila encontra no Centro Interpretativo Festas do Povo – Casa das Flores um ponto de partida quase obrigatório.

Aqui a tecnologia cruza-se com a memória. Vídeos, fotografias e conteúdos interativos conduzem o visitante por mais de um século de história, revelando como uma tradição popular se foi reinventando sem perder a sua essência.

Mas é no final da visita que acontece a surpresa. Depois de conhecer a história, o visitante entra numa recriação de uma rua ornamentada, construída para antecipar a experiência que o espera no exterior.

"Esta rua foi feita em semelhança daquilo que os nossos visitantes vão ver", explica Conceição Quintas. E descreve os detalhes como quem apresenta um cartão-de-visita da vila. "É uma rua feita com buganvílias, tem o teto em branquinho, porque foi decorada como muitas de Campo Maior", sublinha.